Da COP Zero à COP 30: O legado da liderança brasileira no debate climático

A história da diplomacia climática mundial começa no Brasil. Foi no Rio de Janeiro, durante a Rio-92 — que chamamos de COP Zero — que o planeta deu seu primeiro passo concreto rumo a uma governança climática global. Ali nasceram a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), hoje com 198 países, e a estrutura institucional que orienta, até hoje, a tomada de decisões multilaterais para enfrentar a crise climática. Três décadas depois, esse mesmo Brasil retorna ao centro do debate mundial, agora como país-sede da COP 30, em Belém do Pará, reafirmando sua vocação histórica, sua diplomacia ambiental e seu papel estratégico na transição justa e sustentável.

Desde então, as Conferências das Partes consolidaram marcos fundamentais na trajetória global de enfrentamento ao aquecimento do planeta. A COP 1 (Berlim, 1995) inaugurou a fase de negociações formais sobre metas de redução de emissões, estabelecendo que os países desenvolvidos tinham responsabilidade histórica diferenciada. Na COP 3 (Kyoto, 1997), o mundo alcançou o primeiro acordo internacional juridicamente vinculante, com metas obrigatórias para nações industrializadas — um momento-chave que estruturou mercados de carbono e Mecanismos de Desenvolvimento Limpo – MDL, Protocolo de Kyoto.

A COP 15 (Copenhague, 2009) marcou a diplomacia climática com o Acordo de Copenhague, documento que reconheceu oficialmente o limite de 2°C e estabeleceu, pela primeira vez, compromissos financeiros significativos dos países desenvolvidos para apoiar nações em desenvolvimento. Na sequência, a COP 16 (Cancún, 2010) consolidou os Acordos de Cancún, que organizaram instrumentos essenciais de mitigação e adaptação e criaram o Fundo Verde para o Clima, hoje pilar do financiamento climático internacional. Já a COP 21 (Paris, 2015) entrou definitivamente para a história com o Acordo de Paris, marco global que uniu 195 países em torno da meta de limitar o aquecimento a 1,5°C e inaugurou o sistema das NDCs — metas nacionais de redução de emissões revisadas de forma periódica e crescente. Em 2022, a COP 27 (Sharm el-Sheij) produziu outro documento histórico ao instituir o Fundo de Perdas e Danos, reconhecendo que existem impactos climáticos irreversíveis que exigem reparação e apoio financeiro imediato aos países e populações mais vulneráveis.

A COP 30, sediada em Belém do Pará, honra essa trajetória e inaugura uma fase ainda mais decisiva. Embora persistam frustrações — como a lentidão global na redução de combustíveis fósseis e a dificuldade de financiar a adaptação em escala —, importantes avanços foram garantidos. Houve fortalecimento do Acordo de Paris, ampliação de dispositivos de financiamento climático, avanço nos mecanismos de transferência tecnológica e maior reconhecimento das populações afetadas, especialmente povos indígenas e comunidades tradicionais.

O Brasil voltou a exercer liderança ao lançar o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), que mobilizou aproximadamente US$ 6,6 bilhões em compromissos financeiros já nos primeiros anúncios, com aportes de Brasil, Noruega, Alemanha e outros parceiros internacionais. Mais de 53 países endossaram a declaração de criação do fundo, conferindo-lhe legitimidade global e consolidando as florestas tropicais no centro da diplomacia climática contemporânea. Trata-se de um movimento que reafirma que proteger os biomas — e os povos que os guardam — é condição indispensável para manter vivo o objetivo de 1,5°C e garantir uma transição climática justa, inclusiva e baseada na natureza.

Belém, com seus rios, manguezais, aromas de floresta e vozes ancestrais, representa mais que uma sede: simboliza a mudança de consciência que o mundo precisa. Na Amazônia, onde tudo se renova em ciclos, aprendemos que a solução climática não será apenas tecnológica, mas civilizatória. E que, diante da urgência global, há uma verdade que ecoa como orientação ética, política e espiritual:

O FUTURO É ANCESTRAL.

Vinicius Fonseca, Especialista em Negócios Sociais pela Fundação Dom Cabral – FDC; Provedor de Soluções da C40; Membro do Conselho de Comunidades, Novos Negócios e Economia solidaria da Associação comercial do Rio de Janeiro – ACRJ, idealizador do SUSTENTA, Selo de sustentabilidade para grandes eventos (Gestão de resíduos, neutralização de Carbono e tokenização de ativos verdes), Diretor Executivo da INN.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Reset password

Enter your email address and we will send you a link to change your password.

Get started with your account

to save your favourite homes and more

Sign up with email

Get started with your account

to save your favourite homes and more

By clicking the «SIGN UP» button you agree to the Terms of Use and Privacy Policy
Powered by Estatik