FRIZA| O SEGREDO DO COMEÇO
Conforme a vida vai nos dando oportunidade de crescer e sobretudo
amadurecer, começamos a valorizar a importância dos ciclos. Eles deixam de ser
abstrações e passam a organizar nossa rotina, nossos limites e nossas expectativas.
Quando menos percebemos, já são vários ciclos que fazem parte do nosso dia a dia.
Como professor de geografia, é quase inevitável lembrar do ciclo da água,
fundamental para qualquer humano consciente e crítico. Vale a menção honrosa ao
ciclo do sono, cada vez mais respeitado e estudado para nosso bem estar. Mas não
faltam ciclos a nossa volta: o queridinho do momento (cada vez mais respeitado e
estudado para nosso bem estar) que é o do sono, o ciclo menstrual, o da Lua, o da
Terra, o financeiro, o emocional entre tantos outros.
O nosso papo de hoje não é sobre ciclos. Eles continuarão existindo e
persistindo enquanto o mundo não for plano, mas sobre a importância de respeitar o
processo que cada ciclo exige.
Se somos o povo do futebol, também somos o povo da pressa – e isso não casa
muito bem com a natureza humana. A ansiedade por resultados imediatos tem nos feito
esquecer algo básico: quase nada que vale a pena acontece de forma instantânea.
Você sabia que, quando deixamos de ser nômades, nos primórdios da humanidade,
precisávamos de um tempo considerável para ter a presa no ponto ideal para
abatimento, bem como aguardar o tempo da colheita? O mundo se desenvolveu
esperando.
Assim foi se desenvolvendo a história que conhecemos. Os que souberam
esperar quase sempre chegaram mais longe. Não porque fossem mais talentosos,
embora não estou negando aqui as aptidões de nossa história, mas atribuo o sucesso
em grande parte porque sabiam onde queriam chegar e aceitaram o tempo deste
caminho. Veja alguns exemplos de sucessos, recentes ou não, que indubitavelmente o
tempo foi o maior, e por vezes, o único aliado.
Quantos flamenguistas não teriam demitido o Filipe Luís após a derrota para o
Central Córdoba em pleno Maracanã? Quantos de nós teriam desistido de Harry Potter
após doze rejeições editoriais? Quantos de nós persistiram escrevendo por 12 anos
como fez Tolkien sem garantia alguma de reconhecimento?
Por qual motivo estamos nos cobrando tanto em processos que precisam de
tempo como aliado? Quantas tentativas você acha que são necessárias para encontrar
o nosso caminho neste ciclo que julgamos perfeito – e imediato?
Não estou vendendo curso e mais distante ainda estou em te oferecer uma
fórmula pronta. Mas desconfio que o segredo do começo esteja justamente aí:
entender, a dúvida, a espera e a emoção fazem parte da caminhada. Assim como em O
Rei Leão, fé e amor não anulam o sofrimento. Eles atravessam.
Nesta virada de ano, talvez o gesto mais revolucionário seja simples: respirar um
pouco mais fundo, respeitar o tempo das coisas e se reconhecer como parte de um
mundo cíclico

Bruno Friza é colunista do Folha Cabista. Professor de Geografia e de Português, ele combina uma visão crítica com uma sensibilidade única, capturando as nuances do cotidiano e das relações humanas.
Apaixonado por viagens e pelo contato com diferentes culturas, ele acredita que cada pessoa carrega uma história única que merece ser compartilhada.
